Do Tempo



O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel." (Platão)




O Tempo
“O tempo é uma realidade encerrada no instante e suspensa entre dois nadas” Foi assim que Gaston Bachelard interpretou a frase do historiador francês Gaston Roupnel (1872-1946): “O tempo só tem uma realidade, a do Instante”.
O mistério do Tempo sempre me intrigou. Aliás, desde que deparei, pela primeira vez, com o pensamento de Agostinho, em que o bispo africano separava o Tempo em duas dimensões, o eterno e o histórico, passei a pesquisar o tema.
Jorge Luis Borges, em Historia da Eternidade”, afirmou que “o tempo é um problema para nós, um terrível e exigente problema, talvez o mais vital da metafísica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança”. Borges referia-se ao Timeu de Platão para concluir que “o tempo é uma imagem móvel da eternidade; e isso é apenas um acorde que a ninguém distrai da convicção de ser a eternidade imagem feita de substância de tempo”.
Em diversas tradições religiosas e filosóficas o tempo foi cíclico, uma roda que se repete perpetuamente; uma inútil vaidade que transparece na tardia influência grega no Eclesiástes: “Gerações vêm, gerações vão, mas a terra permanece para sempre. O sol se levanta, o sol se põe, e depressa volta ao lugar de onde se levanta. O vento sopra para o sul e vira para o norte; dá voltas e voltas, seguindo sempre o seu curso. Todos os rios vão para o mar, contudo, o mar nunca se enche; ainda que sempre corram para lá, para lá voltam a correr. Todas as coisas trazem canseira…” (Eclesiastes 1.4-8).
O próprio Borges, sem se referir ao texto BIBLICO, previu que as “eternidades platônicas correm o risco de se tornarem insípidas”. Realmente, se tudo se repete num fluxo e refluxo monótono, o destino se torna inevitável. Se o tempo só fica no vai-e-vem, sobra o fatalismo – que é frio, insípido, chato.
O tempo grego, como uma engrenagem, também é trágico. E por trágico quero dizer, inexorável. Se a passagem do tempo não passa de uma roda dentada, encaixada noutras rodas, o futuro já é. E se o futuro já é uma realidade não há como escapar dele. Tragédia se popularizou pela antiguidade ocidental como um gênero literário porque lidava com o tempo como trilho de aço. Mulheres e homens podiam espernear contra sua sina, mas o mundo superior estava pronto, e, portanto, não permitia mudanças. Eis o motivo porque as forças impessoais que movem o cosmo, que regem a eternidade e que aguilhoam o tempo se tornaram inamovíveis para o mundo helênico. (O que será, será).
Mas, para o rabino britânico Jonathan Sacks, Tragédia não tem equivalente na literatura hebraica ou bíblica; no “judaísmo não há destino inevitável”. Na literatura semita o futuro estava sempre aberto para mudanças. Arrependimento, inclusive, passou a valer como um câmbio no comportamento que altera possíveis desdobramentos. Um tipo de futuro, de acordo com as decisões tomadas no presente, pode deixar de existir. Profetas saíam pelas ruas de Israel e Judá conclamando o povo a mudar o amanhã. Nada tinha que ser como se prenunciava. Profetizar era tarefa árdua pelo simples fato de convocar aquela geração a ver-se responsável pela seguinte.
Infelizmente o cristianismo perdeu de vista a cosmogonia semítica para adotar, acríticamente, a grega. Agostinho, que bebeu mais das águas filosóficas neoplatônicas do que das narrativas judaicas, desenvolveu sua teologia considerando passado e futuro, eternamente, como um “Agora” perene – um presente contínuo.
Para Agostinho, tudo foi providencialmente “escrito e determinado” por Deus e nada ou ninguém pode alterar o que já está pronto. Em seus pressupostos, Agostinho acreditava que toda a realidade já pode ser contemplada pelo Deus eterno como uma coisa só. Passado, presente e futuro acontecem num bloco de realidade. Passado, presente e futuro aos olhos de Deus são realidades simultâneas, portanto, fixas.
Por outro lado, o historiador das religiões Mircea Eliade, ao comparar, por exemplo, o cristianismo com o hinduísmo, afirmou que: “Para um hindu simpatizante do cristianismo, a inovação mais espetacular (se deixamos de lado a mensagem ou a divindade do Cristo) consiste na valorização do tempo, em última análise na salvação do tempo e da história”.
Para Eliade, o cristianismo renuncia a reversiblidade do tempo cíclico para impor um tempo irreversível. Eliade cria na irreversibilidade do tempo não no sentido de estar já pronto, mas por ser linear. O tempo é um devir, um linha que vai se alongando. O tempo, no cristianismo, segue adiante. Se o tempo segue, cada instante tem o valor de uma eternidade.
“Pois desta feita as hierofanias manifestadas pelo tempo não podem ser repetidas: o Cristo viveu, foi crucificado e ressuscitou uma única vez”. O evento crístico portanto significa uma cunha irrepetível na linha do tempo. Eliade, assim, aproxima o cristianismo do pensamento de Gaston Bachelard: “Daí vem uma plenitude do instante, a ontologização do tempo: o tempo consegue ser, o que quer dizer que ele para de tornar-se, que se transforma em eternidade”
Vinicius de Moraes também intuiu, acertadamente sobre marcar o instante como infinito na sua efêmera duração. Ele poetizou: “Eu possa dizer do meu amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”.
Para Eliade o evento distintivo que, por assim dizer, “eterniza” o instante seria o momento favorável. A experiência de vivenciar algo que, por tão caro, deveria se repetir, mas não se repete. “O instante transfigurado por uma revelação (quer chamemos ou não este “momento favorável” de Kairós).
Assim, se na poesia o amor confere ao instante um valor eterno, na fé cristã a manifestação de Deus na história, sua intenção salvadora (soteriológica) confere plenitude ao tempo. Há um evento que pode ser considerado o zênite, irrepetível, único, singular: a encarnação. “Como poderia ser inútil e vazio o Tempo que viu Jesus nascer, sofrer, morrer e ressuscitar? Como poderia ser reversível e repetir-se ad infinitum?” (Eliade).
A distinção que distinguirá o cristianismo do judaísmo, portanto, vem do acontecimento histórico que “revela o máximo de trans-historicidade: Deus não intervém apenas na história, como foi o caso do judaísmo; ele se encarna num ser histórico para sofrer a existência historicamente condicionada; aparentemente, Jesus de Nazaré não se diferencia em nada de seus contemporâneos da Palestina. Na aparência, o divino é totalmente oculto na história: nada deixa entrever na fisiologia, na psicologia ou na ‘cultura’ de Jesus, o Deus Pai em si; Jesus come, digere, sente sede ou calor como qualquer outro judeu da Palestina. Mas, na realidade ‘ esse acontecimento histórico’, que constitui a existência de Jesus é uma teofania total…” (Eliade).
Borges conclui, formidavelmente, em “Nova Refutação do Tempo” que não se pode imaginar ou experimentar o tempo como mera simultaneidade: “And yet, and yet… Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal, é terrível porque é irreversível e férreo. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me despedaça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges”.
Deus encarnou na história, se exilou no mundo, se esvaziou em seu Filho. No tempo, andou manso e humilde entre mulheres e homens para que se reconceituesse a percepção da história. No cristianismo não há fatalismo. Assumisse-se responsabilidade com o futuro (seremos complacentes ou transformadores?).
Eu não conseguiria fazer teologia sem dialogar com tais conceitos. Creio na linearidade histórica, plena de contingências existenciais; na liberdade de um mundo que Deus soberanamente organizou, pleno de surpresas e quanticamente aleatório.
Soli Deo Gloria
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Bibliografia:
Eliade, Mircea – Imagens e Símbolos – Martins Fontes, São Paulo, 2002.
Borges, Jorge Luis – Obras Completas, Tomos I e II, Editora
Ricardo Gondim


Sobre a amplidão desta água, em noites que passaram, 
 olhos no alto, a seguir as estrelas em bando,
 eu escutei do Mar as canções que ficaram
por toda a minha vida em minha alma cantando...
Eu deixara na Terra olhos por mim chorando...
Foram mágoas cruéis as que me apunhalaram!
A terra era a alegria... Era a ventura... Ah! Quando
eu a perdi de vista, os meus olhos choraram...
E cismei: – é o passado essa longínqua praia
que foge mais e mais, e se perde, e desmaia
no longínquo horizonte, ao nosso triste olhar...
E vamos sem parar pela viagem da vida.
Porém, quanto maior é a estrada percorrida,
mais torturante na alma é esta ânsia de voltar.
Tasso da Silveira


TEMPO
Em sua mãos,meu Deus,o tempo é infinido.
Não há nada que conte
 os seus minutos.
Passam dias e noite,as eras florecem e murcham voce sabe esperar
seus seculos se sucedem aperfeiçoando uma pequena flor silverstre
Não temos tempo a perder;por isso lutamos por nossas chances.
somos muito pobres para nos atrasar.
Assim o tempo passa,enquanto o ofereço a qualquer rabugento
que o reclame.
O seu altar se esvaziou até da última oferenda.
ao fim do dia,me apresso,
temendo que o portão se  feche,
mas descubro que ainda há tempo.
Tagore


Faça Hoje, Não Amanhã 
Diz o preguiçoso: "Amanhã farei."
Exclama o fraco: "Amanhã terei forças."
Assevera o delinqüente: "Amanhã regenero-me." 
É imperioso reconhecer, porém, que a criatura,
adiando o esforço pessoal, não alcançou, ainda,
a noção real do tempo. Quem não aproveita
a bênção do dia vive distante da glória do século.
A alma sem coragem de avançar cem passos
não caminhará vinte mil.
O lavrador que perde a hora de semear
não consegue prever as conseqüências da procrastinação
do serviço a que se devota, porque,
entre uma hora e outra,
podem surgir impedimentos e lutas de indefinível duração.
Muita gente aguarda a morte para entrar numa boa vida.
Contudo a lei é clara quanto à destinação de cada um de nós.
Alcançaremos sempre os resultados a que nos propomos.
Se todas as aves possuem asas, nem todas
se ajustam à mesma tarefa nem planam no mesmo nível.
A andorinha voa na direção do clima primaveril,
mas o corvo, de modo geral, se consagra,
em qualquer tempo, aos detritos do chão.
Aquilo que o homem procura agora surpreenderá amanhã,
à frente dos olhos e em torno do coração.
Cuida, pois, de fazer, sem delonga,
quanto deve ser feito em benefício de tua própria felicidade,
porque o Amanhã será muito agradável
e benéfico somente para aquele que trabalha no bem,
que cresce no ideal superior
e que aperfeiçoa nas abençoadas horas de Hoje.
 Fonte: Emmanuel
 psicografada por Chico Xavier
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O Tempo é tema ingrato, teclas de sono sobre células ávidas: Tapete perene sob meus pés de sonho. O Tempo cobre de penas e alegrias minhas tantas noites: Confere novas cores a meus dias di-versos. O Tempo sofre aparas, afere augúrios, distribui o terror inédito: Insólito e voraz, ele cobra meus anos. O Tempo enorme, às vezes cálido e audaz, abriga amor e medo: Descobre self, sonhos e faces que aflito exponho. Jairo De Britto, In Dunas de Marfim 

PARA ENTENDER O VALOR DO TEMPO
Para entender o valor de um ano: 
Pergunte a um estudante que não passou nos exames finais;
Para entender o valor de um mês:

Pergunte a mãe que teve um filho prematuro;
Para entender o valor de uma semana:
Pergunte ao editor de uma revista semanal;
Para entender o valor de uma hora:

Pergunte aos apaixonados que estão esperando o momento do encontro;
Para entender o valor do minuto:
Pergunte a uma pessoa que perdeu o avião, o trem, ou o ônibus;
Para entender o valor de um segundo:
Pergunte a uma pessoa que sobreviveu a um acidente;
Para entender o valor de um milisegundo:

Pergunte a uma pessoa que ganhou a medalha de prata nas olimpiadas;
O tempo não espera por ninguém.
Valorize cada momento de sua vida.
(autor desconhecido)

Sobre a amplidão desta água, em noites que passaram, 
olhos no alto, a seguir as estrelas em bando,
eu escutei do Mar as canções que ficaram
por toda a minha vida em minha alma cantando...
Eu deixara na Terra olhos por mim chorando...
Foram mágoas cruéis as que me apunhalaram!
A terra era a alegria... Era a ventura... Ah! Quando
eu a perdi de vista, os meus olhos choraram...
E cismei: – é o passado essa longínqua praia
que foge mais e mais, e se perde, e desmaia
no longínquo horizonte, ao nosso triste olhar...
E vamos sem parar pela viagem da vida.
Porém, quanto maior é a estrada percorrida,
mais torturante na alma é esta ânsia de voltar.
Tasso da Silveira

“Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um esportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, – então, justamente então — reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como… Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo… O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas.”

~ Martin Heidegger (1889-1976), em Introdução à Metafísica

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