Poetas e Poesias


UM POETA É SEMPRE
 IRMÃO
DO VENTO E DA ÁGUA:
 DEIXA SEU RITMO
 POR ONDE PASSA...

Estou convencido de que o mundo não é um mero pântano onde homens e mulheres se jogam... e morrem. Algo magnificente está ocorrendo aqui em meio às crueldades e tragédias e o desafio supremo à inteligência é fazer prevalecer o que há de mais nobre e melhor em nossa curiosa herança.
 (C. A. Beard)

 A poesia expressa um certo estado da mente.





Os PoetasNunca os vistes 
Sentados nos cafés que há na cidade, 
Um livro aberto sobre a mesa e tristes, 
Incógnitos, sem oiro e sem idade? 

Com magros dedos, coroando a fronte, 
Sugerem o nostálgico sentido 
De quem rasgasse um pouco de horizonte 
Proibido... 

Fingem de reis da Terra e do Oceano 
(E filhos são legítimos do vício!) 
Tudo o que neles nos pareça humano 
É fogo de artifício. 

Por vezes, fecham-lhes as portas 
— Ódio que a nada se resume — 
Voltam, depois, a horas mortas, 
Sem um queixume. 

E mostram sempre novos laivos 
De poesia em seu olhar... 

Adolescentes! Afastai-vos 
Quando algum deles vos fitar! 

Pedro Homem de Mello, in 
"O Rapaz da Camisola Verde"

Um PoetaUm poeta 
É um ser único 
Em montes de exemplares 
Que só pensa em versos. 
E só escreve em música 
Sobre assuntos diversos 
Uns vermelhos outros verdes 
Mas sempre magníficos 

Boris Vian, in "Não Queria Patear" 
Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando

Se os Poetas Dessem as Mãos
Se os Poetas dessem as mãos 
e fechassem o Mundo 
no grande abraço da Poesia, 
cairiam as grades das prisões 
que nos tolhem os passos, 
os arames farpados 
que nos rasgam os sonhos, 
os muros de silêncio, 
as muralhas da cólera e do ódio, 
as barreiras do medo, 
e o Dia, como um pássaro liberto, 
desdobraria enfim as asas 
sobre a Noite dos homens. 

Se os Poetas dessem as mãos 
e fechassem o Mundo 
no grande abraço da Poesia. 
Fernanda de Castro, in 
"Ronda das Horas Lentas"
A um Jovem Poeta
Procura a rosa. 
Onde ela estiver 
estás tu fora 
de ti. 
Procura-a em prosa, pode ser 
que em prosa ela floresça 
ainda, sob tanta 
metáfora; pode ser, e que quando 
nela te vires te reconheças 

como diante de uma infância 
inicial não embaciada 
de nenhuma palavra 
e nenhuma lembrança. 

Talvez possas então 
escrever sem porquê, 
evidência de novo da Razão 
e passagem para o que não se vê.
 Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"

 Martinsc

Cântico es existencia
Rilke


O chão dos poetas não é sono lunar
mas vigília aberta ao espaço

o chão dos poetas é culto que se estende
da terra à palavra num rasto de mãos
pulsando o início

o chão dos poetas canta a terra e os homens
por lavrar canta o fogo e a espessura da noite
infinita, canta a aurora o despertar

o chão dos poetas é corpo que desarma e restitui
o sono lúcido aos lábios a língua que se abre ao Sol

o chão dos poetas é seiva que transforma e religa
espírito e matéria cântico e mundo
Gisela Ramos Rosa





Os Deuses me enviaram o mais precioso dos presentes;
tornei-me anfitriã do mais ilustre visitante,
requinte dos requintes,
altivo e radiante,
poderoso Amor.

Vinho de nobre linhagem
vertido em tão rude Graal,
recusas os limites de teu pobre recipiente,
explodes em meu peito,
expandes minha vida para além de qualquer margem.

Ave de vôo potente,
indomável, divina arte,
causas êxtase e vertigem
em quem tenta acompanhar-te.

Com tuas garras, dilaceras
o ousado portador
que anseia por contê-lo.
Dilacera-nos de dor,
e, ainda assim, como és Belo !

Não te vás nunca, Graça Divina,
tão grandioso sentimento
que atravessa todo o mundo,
impetuoso qual fosse o vento.

Se tu partires, não serei nada,
apenas ermo e vão castelo
onde a Psique, desconsolada,
chora a perda do Ser mais belo.

Fica, ainda que tu diluas
as margens deste meu coração
com seus limites imaginários.
És Alkahest, solvente universal,
dissolves o portador temerário
que ousa tentar te conter.

Eu te percebo, às vezes, árduo e cruel,
mas, ainda assim, te quero em minha vida.
Ainda que me negues tuas sombras neste mundo,
ainda que me cegues e exponhas minhas feridas,
ainda que não me dês nada, nada mais
senão o delírio de tua presença,
eu quero estar contigo.

Para quem te sonhou doce, és demasiado amargo,
para quem te crê frágil e lânguido,
és demasiado forte, viril e guerreiro.
Mas não há algo tão belo como és, no mundo inteiro.

Permite, Ser Divino, meu acesso a teu Séqüito,
humilde e despojada de adornos que me impeçam de voar.
Toma-me em tuas garras,
cruzando os ares no ardor deste teu vôo,
vendo o mundo a partir da altitude em que tu o vês,
vendo e amando o mundo através de teus olhos,
ainda que me dilaceres, desmontes e desfaças
e me reconstruas na forma que escolheres para mim.
Lúcia Helena Galvão

Aurora, hora cinza, áurea hora,
momento de encontro com Deus.
Transborda sobre a natureza
um plasma divino, cinzento,
que preenche, a cada momento,
os seres, qual recipientes.
Neste contraste entre a escuridão e a luz,
em que se sente estar vivendo um sonho,
posso saber aonde este sonho conduz.
Os homens erram ao pensar
que o sangue de Deus se derramou
um só dia sobre a Terra,
pois ele se derrama em todas as auroras,
sem alcançar, por hora, despertar os homens.
Que são os homens, senão somente nomes
que se dá a gotas de aurora,
agora, isoladas e esquecidas
da fonte comum que lhes deu vida?
Gotas são partes do Deus que se derrama,
aprisionadas no tempo e no espaço.
Episódios deste Deus a quem se ama
e a quem se busca rastrear, pelos seus passos.
Querer ser gota faz que inevitavelmente
despedacemos a Deus.
Podemos vê-lo, aos pedaços, pelas ruas,
perplexo, perdido, a esmo,
com saudades de si mesmo,
da totalidade.
Senhor, esse plasma misterioso,
prisioneiro da gota que sou,
vem ao teu encontro sempre, a cada Aurora.
Sonha ser célula de um Ser inteiro e vivo,
e não uma lágrima, entre mil, de um ser que chora.
  Lúcia Helena Galvão

Não te amo, quero-te: o amor vem da alma.
           E eu na alma – tenho a calma,
           A calma – do jazigo.
           Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
           E a vida – nem sentida
           A trago eu já, comigo.
           Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
           De um querer bruto e fero
           Que o sangue me devora,
           Não chega ao coração.

Folhas Caídas, 1853 (excerto)


A poesia como uma forma de arte pode ser anterior à escrita.3 Muitas obras antigas, desde os vedas indianos (1700-1200 a.C.) e os Gathas de Zoroastro (1200-900 aC), até a Odisseia (800 - 675 a.C.), parecem ter sido compostas em forma poética para ajudar a memorização e a transmissão oral nas sociedades pré-históricas e antigas.4 A poesia aparece entre os primeiros registros da maioria das culturas letradas, com fragmentos poéticos encontrados em antigosmonolitos, pedras rúnicas e estelas.
O poema épico mais antigo sobrevivente é a Epopeia de Gilgamesh, originado no terceiro milênio a.C. na Suméria (na Mesopotâmia, atual Iraque), que foi escrito em escrita cuneiforme em tabletes de argila e, posteriormente, papiro.5 Outras antigas poesias épicas incluem os épicos gregos Ilíada. e Odisseia, os livrosiranianos antigos Gathas Avesta e Yasna, o épico nacional romano Eneida, deVirgílio, e os épicos indianos Ramayana e Mahabharata.
Os esforços dos pensadores antigos em determinar o que faz a poesia uma forma distinta, e o que distingue a poesia boa da má, resultou na "poética", o estudo da estética da poesia. Algumas sociedades antigas, como a chinesa através do Shi Jing (Clássico da Poesia), um dos Cinco Clássicos doconfucionismo, desenvolveu cânones de obras poéticas que tinham ritual bem como importância estética. Mais recentemente, estudiosos têm se esforçado para encontrar uma definição que possa abranger diferenças formais tão grandes como aquelas entre The Canterbury Tales de Geoffrey Chaucer e Oku no Hosomichi de Matsuo Basho, bem como as diferenças no contexto que abrangem a poesia religiosa Tanakh, poesia romântica e rap.
O contexto pode ser essencial para a poética e para o desenvolvimento do gênero e da forma poética. Poesias que registram os eventos históricos em termos épicos, como Gilgamesh ou o Shahnameh, de Ferdusi, serão necessariamente longas e narrativas, enquanto a poesia usada para propósitos litúrgicos (hinos, salmos, suras e hadiths) é suscetível de ter um tom de inspiração, enquanto que elegia e tragédia são destinadas a invocar respostas emocionais profundas. Outros contextos incluem cantos gregorianos, o discurso formal ou diplomático, retórica e invectiva políticas, cantigas de rodaalegres e versos fantásticos, e até mesmo textos médicos.
O historiador polonês de estética Władysław Tatarkiewicz, em um trabalho acadêmico sobre "O Conceito de Poesia", traça a evolução do que são na verdade dois conceitos de poesia. Tatarkiewicz assinala que o termo é aplicado a duas coisas distintas que, como o poeta Paul Valéry observou, "em um certo ponto encontram união. […] A poesia é uma arte baseada na linguagem. Mas a poesia também tem um significado mais geral […] que é difícil de definir, porque é menos determinado: a poesia expressa um certo estado da mente.





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