Luz nas trevas da idade média - Hildegarda Von Bingen

  LUZ NAS TREVAS DA IDADE MEDIA


*a visionária Hildegard de Bingen (c.1098-1179) sim: antecipando Leonardo da Vinci em quatro séculos, para a monja, o homem ocupava – e legitimamente – o centro do mundo, no centro de uma série de círculos maravilhosos...

 Hildegard de Bingen (A consciência inspirada do século XII), de Régine Pernoud,  uma viagem no tempo, às trevas da Idade Média, período das cruzadas.
O viridissima virgaOh verdíssima rama (tradução livre)
O viridissima virga, ave
que in ventoso flabro sciscitationis
sanctorum prodisti.
Cum venit tempus
quod tu floruisti in ramis tuis,
ave, ave fuit tibi
quia calor solis in te sudavit
sicut odor balsami.
Nam in te floruit pulcher flos
qui odorem dedit omnibus
aromatibus que arida erant.
Et illa apparuerunt omnia
in viriditate plena.
Unde celi dederunt rorem
super gramen
et omnis terra leta facta est,
quoniam viscera ipsius
frumentum protulerunt
et quoniam volucres celi
nidos in ipsa habuerunt.
Deinde facta est esca hominibus
et gaudium magnum epulantium.
Unde, o suavis Virgo,
in te non deficit ullum gaudium.
Hec omnia Eva contempsit.
Nunc autem laus sit Altissimo.[90]
Oh verdíssima rama, salve!
tu que surgiste no sopro
do mistério sagrado.
Era o tempo chegado
de em teus próprios galhos floresceres,
sejas, assim, louvada!,
pois o sol em ti transuda, ardente,
um bálsamo cheiroso.
Deveras em ti abriu rara flor,
que para todos, áridos antes,
deu seu perfume.
E então tudo apareceu
em sua verdura plena.
E o céu derramou seu orvalho
sobre a relva
e toda terra exultou,
pois de seu ventre
brotaram os grãos,
e as aves do céu
nela fizeram seus ninhos.
Assim foi criado o alimento do homem
e a riqueza feliz dos banquetes.
Virgem suave, oh, em ti
nunca míngua a alegria.
Eva uma vez lamentou tudo isso,
mas agora, seja louvado o Altíssimo.
Estou extasiada com a maravilhosa bençao que Deus pos na terra orientando os homens
sobre a cura :PRIMEIRO A ALMA  PARA ENTAO CURAR O CORPO atraves das plantas 
de Hildegarda de Binger
“Assim, o homem 
é o fecho das maravilhas de Deus.”
                                    Iluminura do Scivias mostrando as hierarquias angélicas.
explicação dada pela voz que ouvia: "Então eu vi como se fosse uma imensa torre circular inteiramente construída de pedra branca, com três janelas no topo, de onde saía uma luz tão clara que até mesmo o teto cônico da torre parecia translúcido. As janelas eram decoradas com as mais belas esmeraldas. E esta torre estava colocada como que no dorso da imagem da mulher (a Igreja) que já citei, como uma torre que é construída na muralha de uma cidade, de forma que a imagem não poderia de forma alguma ser abalada por causa de sua solidez e força…" "Pois a razão pela qual viste uma grande torre redonda toda feita de pedra branca é porque a suavidade do Espírito Santo é imensa e engloba totalmente todas as criaturas em sua graça, de modo que nenhuma corrupção na integridade da plenitude da sua justiça a pode destruir; e, brilhando, indica o caminho e emana todos os rios de santidade na claridade de sua força, onde não se pode achar mácula alguma de insensatez. Portanto o Espírito Santo é um fogo cuja ardente serenidade, acendendo as virtudes ígneas, jamais será destruída e assim 


"Eu sou a suprema e incandescente força que acendeu todas as centelhas vivas, e eu não criei coisa alguma morta… e eu sou a vida ígnea da essência de Deus: Eu ardo acima da beleza dos campos, eu brilho nas águas, eu queimo no sol, na lua e nas estrelas… Sou também a Razão. É meu o trovão da sonora Palavra pela qual toda criação veio à existência, e eu animei todas as coisas com meu alento de modo que nenhuma é mortal em seu gênero, pois eu sou a Vida".
Boa parte do livro está concentrada na descrição da constituição e forma do ser humano, compreendendo seu corpo físico e sua alma, correlacionando a forma humana com vários aspectos do microcosmo e do macrocosmo, como ilustração de um extenso comentário aos 14 primeiros versículos do Evangelho de São João e ao livro do Gênesis. Todas as partes do corpo são carregadas de simbolismo] Um exemplo:
"A esfera do crânio indica o poder dominante da humanidade… Deus revela através de nossos olhos o conhecimento pelo qual Deus prevê e conhece tudo de antemão… Deus se nos revela através de nossa habilidade de ouvir todos os sons da glória sobre os mistérios ocultos… pelo nosso nariz Deus mostra a sabedoria que reside como um oloroso senso de ordem em todas as obras de arte… por nossa boca Deus indica a Palavra divina, a Palavra pela qual Deus criou todas as coisas…".
A forma humana é vista, pois, como o modelo divino da Encarnação, de acordo com o conceito básico apresentado no Gênesis, e é louvada como uma manifestação da vitalidade, amor e beleza de Deus. Corpo e alma são concebidos como uma unidade integral, onde as forças da natureza e do espírito interagem em harmonia, e servem como um espelho e objetivo para toda a obra da Criação."Deus inscreveu toda sua obra na forma humana", escreveu. Assim a criação do universo estava ligada indissoluvelmente à criação da forma humana, e mais do que isso, aquela estava quase que subordinada a esta, já que para Hildegarda a Encarnação do Verbo divino estava prevista desde antes do Tempo e a forma humana serviria como o instrumento privilegiado para a reunião da criatura com o Criador após o longo trajeto desde a origem do universo até sua redenção.
Ao mesmo tempo, dizia que a vida que animava o homem era a mesma que animava todo o universo, e que o universo criado era a luz do homem, significando que o trabalho da Redenção estava na dependência do entendimento do mundo, e por consequência, do entendimento da vontade divina. Nesse sentido, até mesmo as paixões humanas, tantas vezes condenadas por outros escritores cristãos de sua época, eram vistas como parte integral do plano divino. Entretanto, ela não foi muito além do reconhecimento e aceitação puros e simples do estado de coisas da humanidade, pois numa perspectiva ideal ainda pensava que o ser humano devia aspirar à reconquista da inocência edênica, o que necessariamente excluía toda a sexualidade. Tendo de administrar ideal e real, concebeu uma teoria da sexualidade muito sutil e ambígua, e de certa forma precária. Comparando o desejo humano à fertilidade da terra, reconhecia que ele dava à luz uma pletora de riquezas, e também que o sexo era fonte de prazer, mas via o corpo como um instrumento da alma que devia ser disciplinado para que se formasse uma cooperação entre ambos, potencialmente confortável e prazerosa, e para que o objetivo primeiro da salvação da alma pudesse ser alcançado. Escreveu:
"E assim a alma diz depois de sua vitória: Oh minha carne, e vós, meus membros, onde fiz minha morada! Quanto me regozijo de ter sido enviada a vós, e de ver que estais em acordo comigo, e que com isso me encaminheis para minha recompensa eterna!"
Liber divinorum termina com uma seção dedicada à escatologia, pintando o Juízo Final em cores escuras, provavelmente estando Hildegarda abalada com o cisma de 1159. Embora em suas cartas ela se recusasse a comentar o assunto, alegando ter sido proibida por Deus de fazê-lo, alusões a um cisma, ainda que inespecífico, são claras no final do livro, colocando a imagem da Justiça a invectivá-lo sonoramente. Também o clero não aparece sob uma luz favorável, sendo acusado de muitos vícios e de submersão nos assuntos mundanos. O tom do livro é bem mais pesado que o do Scivias, mas a estrutura do cosmos que dele emerge é muito mais poderosamente organizada.




O corpo, com efeito, é vestimenta da alma que tem uma voz viva, e é por isso que é conveniente que o corpo cante com a alma, pela voz dela, os louvores a Deus. Do que resulta que o espírito profético ordene expressamente que Deus seja louvado pela alegria dos címbalos e por outros instrumentos de música que sábios e estudiosos inventaram, pois todas as artes úteis e indispensáveis aos homens provêm desse sopro de espírito que Deus insuflou no corpo do homem; e é por isso que é justo que todo o tempo eles louvem a Deus. E, posto que o homem ao ouvir certos cantos às vezes suspira e freqüentemente geme, recordando a natureza da harmonia celeste em sua alma, o profeta, considerando e conhecendo a natureza do espírito – posto que a alma é de natureza sinfônica -, exorta-nosno slado que cantamos com a cítara e salmodiamos com o desacordo.” 

Não foi apenas na música e na teologia que a abadessa Hildegard von Bingen se destacou. Escreveu dois trabalhos sobre medicina, mostrando um vasto conhecimento sobre plantas medicinais. Os livros que escreveu são os mais conhecidos tratados sobre medicina no ocidente durante o século XII. Uma de suas grandes preocupações clínicas era a cura da melancolia que perigosamente solapava a “viridez”.

Hildegard denunciava a corrupção da Igreja, os falsos padres, a luxúria, os surgimento de novas seitas no cristianismo que enfatizavam o dualismo e o maniqueísmo, a riqueza ostensiva do clero. Suas palavras despertaram paixões e polêmicas por toda a Europa, com sua concepção inovadora da relação do homem com o cosmo e do papel da mulher com plena participação na vida do Espírito


 A abadessa e teve a vida marcada por visões, ouvia a voz divina , desenhava mandalas com as imagens: um homem no centro do globo (mundo), espelhos, asas, muros... As mensagens que a visionária recebia não eram guardadas no claustro, Hildegard as escrevia em livros e fazia pregações e sermões públicos. A última visão do livro Scivias, escrita como peça teatral ou ópera, inspirou a obra musical Ordo Virtutum, onde as virtudes são personificadas e sofrem ataques dos demônios. Os últimos anos de sua vida foram marcados por um incidente trágico. O enterro de um revolucinário que havia sido excomungado gerou a interdição do mosteiro Rupertsberg e a proibição de celebrar os cânticos de louvor divino. O arcebispado de Mayence impôs que o defunto fosse desenterrado, mas a abadessa Hildegarda Von Bingen, após ter uma visão, recusou-se a cumprir a ordem, pois afirmava que o morto estava em plena comunhão com Deus quando faleceu e que havia recebido todos os sacramentos.
consciência inspirada do século XII), de Régine Pernoud,.....




*Para a visionária Hildegard de Bingen (c.1098-1179) sim: antecipando Leonardo da Vinci em quatro séculos, para a monja, o homem ocupava – e legitimamente – o centro do mundo, no centro de uma série de círculos maravilhosos:
No centro do peito da figura que eu havia contemplado no seio dos espaços aéreos do Sul, eis que surgiu um roda de maravilhosa aparência. Continha os signos que a reaproximavam dessa visão em forma de ovo, que eu tive há dezoito anos e que descrevi na terceira visão do meu livro Scivias (...)

na parte superior aparecia um círculo de fogo claro que dominava outro, de fogo negro (...) em seguida vinha um círculo que era como que de ar carregado de umidade (...) sob este círculo de ar úmido aparecia um de ar branco, denso (...) esses dois círculos estavam igualmente ligados entre si (...)

Enfim, sob esse ar branco e firme apresentava-se uma segunda camada aérea, tênue, que parecia estender-se sobre todo o círculo, provocando nuvens, ora claras, ora baixas e sombrias. Esses seis círculos estavam ligados entre si, sem espaço intermediário (...) A figura do homem ocupava o centro dessa roda-gigante... (HILDEGARD DE BINGEN. O Livro das Obras Divinas. Citado em PERNOUD, 1996: 72-73)
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O homem-microcosmo de Hildegarda de Bingen A tríplice figura abraça o universo inteiro; um círculo de fogo claro, um outro de "fogo negro", um círculo de ar úmido, um outro de ar branco, uma segunda camada aérea - traçados com a precisão que caracteriza o texto de Hildegard. Uma figura humana erguida no centro recebe os sopros enviados dos quatro cantos, das cabeças de animais - leopardo, leão, lobo, urso, caranguejo, cervo, serpente, cordeiro - enquanto os planetas irradiam em direção às cabeças de animais e à figura do homem (PERNOUD, 1996). Repare que Hildegarda está sentada à esquerda, abaixo, contemplando o homem-microcosmo e redigindo sua visão.
São imagens fantásticas essas da visionária beneditina, imagens compartilhadas pela teoria geral do microcosmo vigente então (LOPEZ, 1965: 364). Juntamente com a concepção medieval do espaço, elas merecem um aprofundamento. Assim com seus livros homeopáticos


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