Rumi - Além das Palavras o Sentimento Sufi


Mundo Além das Palavras 

 Jalal-ud-Din Rumi





Dentro deste mundo há um outro mundo impermeável às palavras.
Nele, nem a vida teme a morte, nem a primavera dá lugar ao outono.

Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes, até mesmo as rochas e árvores exalam poesia.
Aqui, a coruja transforma-se em pavão; o lobo, em belo pastor.

Para mudar a paisagem, basta mudar o que sentes;
E se queres passear por esses lugares, basta expressar o desejo.

Fixa o olhar no deserto de espinhos.
- Já é agora um jardim florido!
Vês aquele bloco de pedra no chão?
- Já se move e dele surge a mina de rubis!

Lava tuas mãos e teu rosto nas águas deste lugar, que aqui te preparam um fausto banquete.
Aqui, todo ser gera um anjo; e quando me vêem subindo aos céus, os cadáveres retornam à vida.

Decerto viste as árvores crescendo da terra, mas quem há de ter visto o nascimento do Paraíso?
Viste também as águas dos mares e rios, mas quem há de ter visto nascer de uma única gota d'água uma centúria de guerreiros?

Quem haveria de imaginar essa morada, esse céu, esse jardim do paraíso?
Tu, que lês este poema, traduze-o. Diz a todos o que aprendeste sobre este lugar.
                                                   

                
Fala com teu Amado, não resistas,
se já não podes mais viver sem Ele?

Queres Sua palavra, mas não ouves.
Andas sempre tão confuso e apressado.

Como se não quisesses mais ouvir.
A tua mente é serva da cobiça.

Buscas ouro, mas derramas sangue,
tens desejos como as mulheres grávidas.

Adoras muitos deuses e te perdes
com ídolos e imagens peregrinas.

Ele nos dá Seu ouro, Sua vida.
Pássaro da alma, voa de Seu domo.

Ele prepara um suave banquete.
Oh! Como é belo o servidor de vinho.

Se houver mais de um senhor, essa é a lei,
a casa não resiste, desmorona.

Sou seu escravo, ele é senhor.
Sou água e seu óleo flutua sobre mim.

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Rumi - 


Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.

Se a forma esvaece, não importa,
permanece o original.

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fome é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos dois se detém?

A alma é a fonte,
e as coisas criadas os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti,
para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde animal.
Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto ás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu

Passa de novo pela vida evangelical,
entra naquele oceano,
e que tua gota se torna mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman.
Abandono este filho que chamas corpo
e diz sempre “Um” com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa.
Ainda é fresca tua alma. —


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Ontem no dealbar disse o Amado:
"Por que vives tão triste, além da sombra?

A rosa inveja o meu rosto; mas teus
olhos buscam espinhos."

Respondi: "Perto de ti, ciprestes são arbustos
Perto de ti, é negra a luz do céu.

Ah! moveste céu e terra;
tenho medo desse abismo."

E ele: "Sou tua alma e coração.
Descansa no meu peito de jasmim!"

E eu: "Se tu levaste minha paz
como posso me calar."

Respondeu: "És uma gota de meu oceano:
cheia de pérolas, a concha da alma."
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Vós que saístes a peregrinar!
Voltai, voltai, que o Amado não partiu!

O Amado é vosso vizinho de porta,
por que vagar no deserto da Arábia?

Olhai o rosto sem rosto do Amado,
peregrinos sereis, casa e Kaaba.

De casa em casa buscastes resposta.
Mas não ousastes subir ao telhado.

Onde as flores, se vistes o jardim?
A pérola, além do mar de Deus?

Que descobristes em vossa fadiga?
O véu apenas, mas vós sois o véu.

Se desejais chegar à casa da alma,
buscai no espelho o rosto mais singelo.
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Teu convite aceitei; estou confuso,
não sei chegar, não sei onde é a casa.

A cidade celebra teu amor.
Mostra o lugar, não sei onde é a casa.

E já não tentes compreender o Amado.
Não O insultes, não sei onde é a casa.

Todos sabem de mim. Queimo de amor.
Não me deixes, não sei onde é a casa.

Guia os cantores e bate o tambor.
Diz onde estás, não sei onde é a casa.

Divino Shams, não sou de mais ninguém.
Guia-me, pois não sei onde é a casa.
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O que fazer, se não me reconheço?
Não sou cristão, judeu ou muçulmano.

Se já não sou do Ocidente ou do Oriente,
não sou das minas, da terra ou do céu.

Não sou feito de terra, água, ar ou fogo;
não sou do Empíreo, do Ser ou da Essência.

Nem da China, da Índia ou Saxônia,
da Bulgária, do Iraque ou Khorasan.

Não sou do paraíso ou deste mundo,
não sou de Adão e Eva, nem do Hades.

O meu lugar é sempre o não-lugar,
não sou do corpo, da alma, sou do Amado.

O mundo é apenas Um, venci o Dois.
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um.

"Primeiro e último, de dentro e fora,
eu canto e reconheço aquele que É

"Ébrio de amor, não sei de céu e terra.
Não passo do mais puro libertino.

Se houver passado um dia em minha vida sem ti,
eu desse dia me arrependo.

Se pudesse passar um só instante contigo,
eu dançaria nos dois mundos.

Shams de Tabriz, vou ébrio pelo mundo
e beijo com meus lábios a loucura.

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Sou artista, pintor, desenho imagens,
nenhuma se compara a Teu fulgor.

Sei criar mil fantasmas, dar-lhes vida,
mas se vejo Teu rosto, dou-lhes fogo.

Serves Teu vinho ao ébrio na taberna,
e abates toda casa que construo.

Nossa alma em Ti se dissolve:
água na água,vinho no vinho: sinto o Teu perfume.

Cada gota de meu sangue te implora:
"Faz-me Teu par e dá-me Tua cor."

Sofre minha alma na casa de argila:
"Entra, Amado, senão hei de partir!"
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Pudesse a árvore vagar
E mover-se com pés e asas,

Não sofreria os golpes do machado
Nem a dor de ser cortada.

Não errasse o sol por toda a noite,
Como poderia ser o mundo iluminado
A cada nova manhã?

E se a água do mar não subisse ao céu,
Como cresceriam as plantas
Regadas pela chuva e pelos rios?

A gota que deixou seu lar, o oceano,
E a ele depois retornou,
Encontrou a ostra à sua espera
E nela se fez pérola.

Não deixou José seu pai
Em lágrimas, pesar e desespero,
Ao partir em viagem para alcançar
O reinado e a fortuna?

Não viajou o Profeta
Para a distante Medina
Onde encontrou novo reino
E centenas de povos para governar?

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
E reflete, como a mina de rubis ,
Os raios de sol para fora de ti.

A viagem te conduzirá a teu ser,
Transmutará teu pó em ouro puro.

Ainda que a água salgada
Faça nascer mil espécies de frutos,
Abandona todo amargor e acidez
E guia-te apenas pela doçura.

É o Sol de Tabriz que opera todos os milagres:
Toda árvore ganha beleza
Quando tocada pelo sol.
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Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.
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Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.
E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.
Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,
Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.
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Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto
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Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.
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Teu amor me tirou de mim.
De ti, preciso de ti
Noite e dia, eu queimo por ti.
De ti, preciso de ti.
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A fé da religião do Amor é diferente.
A embriaguez do vinho do Amor é diferente.
Tudo que aprendes na escola é diferente.
Tudo que aprendes do Amor é diferente.
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Ele chegou... Chegou aquele que nunca partiu;
Esta água nunca faltou a este riacho
Ele é a substância do almíscar e nós o seu perfume,
Alguma vez se viu o almíscar separado de seu cheiro?
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Não posso dormir quando estou contigo
por causa de teu amor.
Não posso dormir quando estou sem ti
por causa de meu pranto e gemidos.
Passo as duas noites acordado
mas, que diferença entre uma e outra!
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- Vem ao jardim na primavera, disseste.
- Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?







HAFIZ (Khwaja Hafiz) - Poeta lírico sufi persa - 1325-1390. 

Viajante,

Somos como dois copos de água
que Deus despejou em um jarro.

 Sou um com você completamente.

É claro que quaisquer sonhos que você tenha deste mundo
eu também posso dizer que são meus.

É estranho mas é verdade:
 a “água” pode dormir.

 Quando você despertar, querido,
não fique assustado,
estaremos girando uma corda ao redor de DEUS
assistindo o sol divertidamente rir e pular
no meio de nossa inacreditável União divina.

***


Todos talentos de Deus estão dentro de você.

Como poderia ser diferente,
uma vez que sua alma
derivou dos genes Dele!

  Eu amo esta expressão:

 “Todos os talentos de Deus estão dentro de você.”

Às vezes Hafiz não consegue fazer nada senão aplaudir
 Certas palavras que surgem de minhas profundezas
como a fragrância do corpo de uma amante.

 Segure este livro perto do seu coração
 pois ele contém segredos maravilhosos.
***
A vida é um favor para nós,
mas nossas balanças perderam seu equilíbrio.
A impermanência do corpo deveria dar-nos grande clareza,
aprofundando em nossos olhos e sentidos a maravilha
desta misteriosa existência que partilhamos e pela qual
certamente estamos apenas passando.
Se eu estivesse na Taberna essa noiteHafiz pediria bebidas
e enquanto o Mestre enchesse os copos,
eu seria lembrado que tudo o que sei da vida e de mim próprio
é que nos somos apenas um vôo de vinho dourado entre seu jarro e seu copo.
Se eu estivesse na Taberna essa noitepagaria uma rodada
a todos neste mundo porque o nosso casamento com a
beleza cruel do tempo e do espaço não pode durar muito.
A Morte é um favor para nós, mas nossas mentes perderam seu equilíbrio.
A existência milagrosa e a impermanência da forma
sempre fazem dançar e cantar aos Iluminados.
***
Aprende com a conchinha dos mares a amar o teu inimigo e a encher de pérolas a mão que te faz mal. Não sejas menos generoso que o duro rochedo; faze resplandecer de pedras preciosas o braço que te rompe os flancos. Vês lá embaixo aquela árvore alvejada por uma chuva de pedras? Sobre os que a apedrejam caem somente frutos deliciosos ou flores perfumadas. Clama-nos a voz da natureza inteira: será o homem o único ser que se recusa a curar a mão que se feriu, ferindo-o? A abençoar aquele que o ultraja?
 Fonte: Otimismo e Sabedoria - 
Esteban Santa Cruz - Edicel. 



ABDULLAH ANSARI (1005-1090)



Khawaja Abdullah Ansari foi um poeta persa, nascido em Herat, no ano de 1005, e falecido em 1090. 









A CAABA

Vigia atentamente o estado de tua própria mente. 

O amor a Deus começa na inocência. 

Saibas que o profeta construiu uma Caaba externa de barro e água, 

e uma Caaba interna na vida e no coração.

A Caaba externa foi construída por Abraão, o Santo; 

a interna é santificada pela glória de Deus mesmo.

No caminho de Deus dois locais de adoração marcam as etapas. 

O templo material e o templo do coração. 

Empenhe-se para adorar no templo do coração.

Oh! Mendicante, o paraíso é apenas uma tentação; 

o objetivo real é a própria casa de Deus.



ELAHI, ELAHI



Oh meu Deus, meu Deus! 

Todas as tristezas do mundo, 

quando eu penso em Ti, 

tornam-se regozijo. 



Oh meu Deus... 

Todas as alegrias do mundo, 

quando eu não penso em Ti, 

são somente orgulho e vaidade. 



Oh meu Deus... 

Dá-me felicidade nesta terra 

na esperança da Ressurreição.



Oh Senhor, intoxica-me com o vinho do amor, 

ata-me para sempre com as cadeias do amor, 

libera-me de toda auto estima, destrua-me, 

traze-me de volta à vida em Teu amor. 



Constantemente meu coração arde de amor por Ti, 
minha alma, no mais recôndito de meu ser, 
comove-se apenas por Ti. 
Se mesmo uma planta crescesse em minha sepultura, 
cada uma de suas folhas expressaria meu amor por Ti. 

CONQUISTE O CORAÇÃO

Jejuar, apenas significa poupar pão,
A prece formal é a ocupação
De velhos e velhas,
A peregrinação é um prazer do mundo,
Conquiste o coração,
A sua sujeição é uma conquista de fato.

Se podes caminhar na água
Tu não és melhor do que uma palha.
Se podes voar no ar
Não és melhor do que uma mosca.
Conquista teu coração
Para que possas te tornar alguém.

Um homem passa setenta anos em aprendizagem
E fracassa em iluminar-se.
Outro, em toda a sua vida nada aprendeu
Mas ouve uma palavra
E é consumido por ela.

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